Por um longo período de tempo, aproveitando uma dessas extensas ilhas de estoicismo-desemprego-divórcio-inércia-isolamento que às vezes nos fazem tirar férias forçadas de todo o resto, a observei passear furtivamente pelo apartamento. Vinha sempre marginando as paredes com medo e humildade; às vezes sentava-se por longos períodos de tempo sob a mesa ou no ângulo mais distante de mim entre duas paredes. Entramos em consenso para considerar sua invisibilidade em todas as suas aplicações práticas.
Sei que ela esperava que eu caísse no sono pra demonstrar algum senso de humor, vindo fazer cócegas na sola dos meus pés na esperança infantil de que eu me mijasse de rir, ou até carinho, beijando furtivamente a minha boca e as pálpebras dos meus olhos. Também não ignoro que tinha amigas e que elas a iam visitar: sentia formigar a nuca quando me observavam com desaprovação e respeito.
Nunca neguei migalha ou um resto para que ela também tivesse o que comer. Mas sempre preferi esperar que a comida passasse do ponto, pra oferecê-la já meio estragada. Ela comia com voracidade, mas imagino que também se antecipasse abrindo armários pra lamber toda a dispensa com a boca cheia de azedo e bolor. Intoxicávamo-nos mutuamente, o que parecia justo, se não pensarmos no quão pouco saudável era o nosso jogo.
No dia em que resolvi acabar com tudo aquilo, levantei de repente do sofá pra iniciar uma perseguição ferrenha que durou mais de hora. Gritei e esmurrei as paredes pra atrapalhar sua fuga, e cheguei a tropeçar e cair umas duas vezes vítima da minha própria falta de concentração. Mas quando finalmente a encurralei em um quarto, a esmaguei com tanta força sob meu pé esquerdo que a mancha do seu sangue e saliva ainda sobrevive no carpete, tantos meses depois.
Até anteontem eu ainda carregava por aí comigo o seu corpinho ressacado e deformado de inseto dentro de um saquinho plástico, e podia observar de cima para baixo quem passava por mim na rua, de empáfia inabalável, todos os ambulantes, as virgens de 23 anos de idade, os crentes, os personagens da bossa nova, os motoristas imprudentes, os ranzinzas. Porque se fosse necessário comprovar, pra além das palavras, eu é que carregava a morte dentro da carteira.