Cidade fantasma

Te peguei, cidadezinha de merda

Te peguei, cidadezinha de merda

Às vezes, se eu durmo com a televisão ligada e um filme do Charles Bronson passa de madrugada pra encher o quarto de adrenalina e testosterona, eu acordo de repente, acelerado, como se tivesse tomado um negócio pesado, e saio correndo de casa. Vou de pijama mesmo, sem lavar o rosto nem escovar os dentes, com a cara toda amassada. Desço as escadas no pique pra não ficar refém do elevador.

E aí chego na rua, e os semáforos estão desligados, as lojas fechadas, nenhum carro estacionado ou em movimento. Ninguém indo comprar pão. Nenhuma senhorinha fresca passeando um Lhasa Apso. As bancas de jornal fechadas, empoeiradas, como se fossem relíquias de um passado distante. Nenhum polícia tomando café no boteco da esquina. Nada nem ninguém.

Só que de repente eu pisco os olhos um pouco mais devagar, ou paro pra finalmente sacudir minhas remelas fora, e os figurantes já vieram correndo ocupar seus postos, os eletrônicos estão ligados e os estabelecimentos em pleno funcionamento. Passa o carteiro apressado, uma criança jovenzinha demais pra ir sozinha pra escola desse jeito, e eu lá, sujo e roto, virando piada na boca dos operários em uma obra qualquer. Mas nem ligo. Eu, comigo mesmo, sei que peguei todos vocês. A mim não enganam, não.

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