Stairway to heaven

A decolagem do “Topo do Mundo” aconteceu no dia 15 de novembro de 1981, no Campo de Marte. Foi um grande alvoroço à época, porque lá não é lugar pra botar pra funcionar uma aeronave grande e potente como o concorde, mas Jaime, seu proprietário, havia subornado todos os pulhas cívico-militares necessários para cumprir seu evento de gala, já marcado com meses de antecedência, todos os convites distribuídos às autoridades.

Jaime comprou seu paraíso voador a custa de muito esforço. Está certo que era funcionário público fantasma de uma repartição qualquer, mas era só uma suplementação de renda. Ele trabalhava um bocado. Pela manhã, gerenciava as 22 barraquinhas de produtos “importados” que mantinha no centro. Já a tarde passava em um centro espírita, onde testemunhava, documentava e assinava as atas das encarnações na mesa branca. Quando o sol se punha, vestia-se de Dulcinéia e arrancava a fortuna que pudesse da noite.

E foi naquele verão de 81 que ele finalmente cumpriu o sonho: colocar no ar o concorde que comprou usado da Air France, já devidamente reformado. O havia transformado em bar, o “Topo do Mundo”, com garçons, barmans, cozinheiros, hostess, toda a pompa e circunstância. No fundo, construiu um quarto luxuoso pra viver, diferente dos muquifos onde teve de se esconder enquanto trabalhava pra juntar o dinheiro.

O plano era audacioso: colocou o bichão no ar e acelerou com tudo pra rodear o planeta até voltar a sobrevoar a capital, especificamente o terreno que havia comprado para instalar o seu bar, onde só fez o piso. Aí reduziu até a velocidade de rotação da terra — uns 1,5 mil km/h àquela distância do equador — pra conseguir o efeito desejado.

Quem olhava pra cima via lá um aviãozinho parado, flutuando num ponto fixo do céu, e uma escada de corda grossa que saía do meio das nuvens traçando uma reta que ligava aquela pipa exagerada ao terreno vazio embaixo, o endereço fantasia do bar do Jaime. Ao cliente, bastava vestir blusas de alpinista, munir uma mochila com as provisões necessárias e escalar insistentemente, sem deixar-se cair inconsciente sobre os arranha-céus, até o “Topo do Mundo”.

Jaime ficava lá, de fraque e cartola, sentado no centro do salão em uma poltrona alta e imponente, de tons azuis. Era lá que recebia os chefes de estado do mundo inteiro, muitos dos quais, é claro, embarcavam em complicadas operações de translado de uma aeronave a outra, que esse negócio de escalar por dias uma escada de corda não é coisa para primeiros-ministros e presidentes.

Um dia, em meados de 1986, a festa estava boa demais pra terminar de qualquer jeito. As pessoas eram muitíssimo interessantes, ainda havia muita bebida e ninguém parecia ficar enjoado de ouvir a mesma seleção do jukebox repetidamente — porque era ótima, é fato. Foi um príncipe expatriado do leste europeu que deu a idéia de fazer o tempo parar.

Foi muito simples: mandaram o piloto dar meia-volta, mantiveram a velocidade e viram, ao invés da paisagem estática que havia abaixo, os continentes rolando dentro e fora das noites efêmeras enquanto continuava a ser 03h15 pra sempre no “Topo do Mundo”. Incansáveis e inconseqüentes, os convidados de Jaime não precisariam nunca mais terminar a celebração.

Foi só alegria por uns dois meses, até o primeiro ultimato chegar pelo rádio. A força aérea norte-americana, por algum motivo, tinha ordens para abater o embalo itinerante de Jaime. Parece que ele tinha esquecido de recolher a escada e tinha acabado por danificar o nariz de Thomas Jefferson no Monte Rushmore ou outra heresia do genêro.

Foi um sufoco só. Quem pôde, saltou de pára-quedas sobre as águas geladas do Pacífico. Quem tinha como chamar resgate chamou, e houve até quem tentou a sorte saltando pela porta sem salvaguarda nenhuma. Os que caíram puderam ver, abismados, quantos refugiados políticos e econômicos de todo o mundo haviam fixado moradia agarrados na escada de corda, provavelmente embarcando  conforme ela se arrastava sobre a terra.

Havia até os espertos que, subindo já munidos de martelo, pregos e tábuas, haviam anexado plataformas no meio do caminho e viviam em casas da árvore no meio das nuvens. Pode até ser que não tinha nada de Monte Rushmore na história, vai ver que uns cubanos se agarraram no rabo do avião pra pousar em algum lugar da américa.

O piloto, apesar de levemente embrigado, tinha experiência suficiente pra fazer as manobras evasivas necessárias. Se aproveitou da velocidade do concorde e se mandou pelos pontos cegos dos radares mundiais em eterna retirada. Quando acabou o combustível, diz-se que todos correram a encher balões pra amarrar nas asas do avião — havia milhões deles, originalmente preparados para despejar sobre Helsinque no primeiro dia do verão nórdico.

Não acredito que esse plano tenha funcionado.

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